Especial: O presidente que aprendeu - Parte III

João Nilson Zunino dá detalhes sobre a situação financeira do clube Avaí

Por INfoesporte

20/02/2012 - 21h05

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Presidente do Avaí, João Nilson Zunino, na sala da presidência na Ressacada (Foto: Filipe Calmon/INfoesporte)

Nesta terceira parte da entrevista exclusiva do Portal INfoesporte com o presidente João Nilson Zunino abordamos um tema delicado: as finanças do clube. Esse tópico é sequência direta do que foi apresentado na segunda parte da entrevista. Para Zunino, as contratações que se sucederam à chegada do técnico Alexandre Gallo desequilibraram as finanças do Avaí, o que ocasionou uma série de atrasos nos salários e em um déficit contábil no final da temporada 2011.

Para piorar o quadro, o prejuízo financeiro imediato com folha salaria foi acompanhado de um pífio desempenho dentro das quatro linhas. O Leão da Ilha passou o Campeonato Brasileiro da Série A 2011 inteiro dentro da zona de rebaixamento.

A Ressacada foi se esvaziando a cada rodada e afetou também o quadro social do clube com o crescimento da inadimplência e pedidos sucessivos de cancelamento da carteirinha de sócio. O pior deste quadro é que o ano seguinte não mais reservava para o clube as gordas cotas de patrocínio e de direitos de transmissão vinculados à participação do clube na Série A. Afinal de contas, o fim do ano foi com o time azurra rebaixado à segunda divisão.

Dívidas

Desde agosto de 2011, de acordo com apuração do INfoesporte, o Avaí Futebol Clube passou a atrasar sistematicamente os salários dos jogadores. Em alguns momentos, os atrasos foram negados pelo clube e em outros assumidos. No fim do ano, muitos dos atletas contratados tiveram contratos rescindidos gerando mais dívida. Para iniciar 2012, as dívidas continuaram a sufocar o orçamento azurra. De acordo com Zunino, esse problema está contornado, mas não resolvido.

O presidente João Nilson Zunino - Não. Não. Não totalmente. Com os jogadores que saíram, que foram dispensados, eu diria que foram resolvidos na sua quase absoluta maioria dentro de planejamento de pagamento. A dívida foi negociada. Toda, toda, toda. Se eu disser para ti que foi resolvida e não te contar isso, daqui a pouco vai chegar aqui, sei lá, o Welton Felipe, e dizer que o Avaí está pagando ainda.

Na virada do ano, o atraso no pagamento dos salários acabou atingindo também alguns funcionários. Zunino comenta o assunto.

- É uma dificuldade imensa. Isso nós temos ainda alguns probleminhas internos. Os funcionários que menos ganham estão todos em dia, mas alguns funcionários que tinham salário maior acabaram atrasando um pouquinho. O que nós queremos resolver dentro de, no máximo, início de março. Tudo isso estará resolvido. É porque é muito complicado.

Lincoln, um bom, porém caro, negócio (Foto: INfoesporte)

O prejuízo da temporada 2011 é detalhado em razões e em números pelo presidente avaiano.

- É um reflexo dos jogadores que chegaram naquela época e com os treinadores que passaram. O prejuízo é muito claro. Fizemos um levantamento com o nosso departamento financeiro. Nós tínhamos uma receita planejada para ano e tínhamos uma despesa projetada um pouco abaixo. O que aconteceu com a despesa depois que o cara (Gallo) chegou? Ela subiu. E o que aconteceu com as receitas? Começou a ter resultados terríveis dentro de campo. Bilheteria foi para o pau, sócio deixou de pagar. Está voltando tudo, está voltando tudo. Então essa distância entre a receita e a despesa cresceu bastante. É um prejuízo que deu de R$ 4,5 milhões. Nós tínhamos tudo para chegar no final do ano com um superávit de R$ 2 milhões. O que dá R$ 6,5 milhões de diferença. O que é complicado - lamentou Zunino.

Segundo o presidente, outros fatores contribuíram para esse cenário econômico. Dentre eles, alguns que deviam ao clube e que não pagaram.

- Nada disso que aconteceu ano passado teria ocorrido se quem nos devia cumprisse com aquilo que tinha que fazer. Não cumpriram - disse Zunino.

Com um pouco de insistência, sem querer citar nomes de empresas da iniciativa privada, usou o Governo do Estado como exemplo.

- Existia um projeto que o Estado de Santa Catarina faz para vários esportes, para vários clubes de futebol, como construiu a Arena em Joinville. Nesse ano tinha quatro clubes que tinham solicitado. O nosso, por exemplo, era para a formação de atletas. Não veio e nós não abandonamos o projeto. Tiramos dinheiro e colocamos naquilo tirando dinheiro que seria aplicado em outras coisas.

Imagem que fica ao lado da cabeceira de Zunino na sala da presidência (Foto: Filipe Calmon/INfoesporte)

Apesar de citar o Governo como exemplo, Zunino chama para o Avaí a responsabilidade dizendo que a culpa da verba não ter chegado não é do Governo.

- Não. Não posso dizer que seja. Os outros clubes tiveram mais competência, conseguiram. Joinville, Figueirense, Criciúma, tiveram mais competência e receberam a parte deles. A nossa ficou para esse ano em função de pequenos atrasos. Eu não quero dizer que houve culpa. O fato é que não chegou na época que nós gostaríamos. Era um desespero tão grande aqui, que às vezes poderíamos fazer algo melhor.

Na ausência de outros recursos, Zunino, alguns diretores e empresários ligados ao Avaí teriam tirado do próprio bolso para socorrer o clube.

- O presidente ajudou a saldar essa dívida e outros diretores também fizeram isso. E outros empresários avaianos também - garantiu Zunino.

Também garantiu, porém, que não se trata de doação para o Avaí, que é uma dívida do clube.

- Com certeza ele deve. Isso é colocado de todas as formas legais, contábeis e jurídicas dentro do clube. Isso fica bem claro. Isso é absolutamente assim, dessa forma. Sempre foi assim.

Acompanhe a explicação do presidente avaiano que garante que a dívida não será cobrada com juros.

- Não. Esse é o grande problema. Poderia ser feito isso, mas no Avaí não foi feito no passado. Esse dinheiro não é poupança de um diretor, é um crédito dele que ele tem no banco. Ele vai lá, pega o dinheiro emprestado e dá ao Avaí. Quem deve no banco é esse diretor. O que que tinha que ser feito? Um mútuo. O diretor daria o crédito ao Avaí. Por exemplo, o professor Ênio diz que vai tirar R$ 10 no banco que tem crédito. Aí ele vai lá e já faz um contrato de mútuo que esse R$ 10 entrou no Avaí comprovadamente. Portanto, na hora de pagar para o banco, quem paga é o Avaí, embora seja na conta dele. Isso nunca foi feito. Todo dinheiro que o sujeito coloca em um país como esse que o juro, quando baixo, é 10%, você imagina como era quando era 6% ao mês. Teve época que foi. Se fosse feito mútuo, o clube que assumiria as parcelas desses empréstimos, mas nunca foi feito. Quem paga é quem tirou o dinheiro. E aí esse R$ 1 que o diretor tirou vira R$ 4 e o clube deve R$ 1. Mas aquele que tirou fica devendo R$ 4. E isso não tem que chorar. Essa é a bobagem que essas pessoas fazem e eu sou um cara que fiz isso. Por quê? Porque não podia deixar. O futebol teve uma inflação muito séria nesse tempo.

Léo Campos admitiu em entrevista ao INfoesporte que é agenciado por Gabriel Zunino (Foto: Arquivo Pessoal)

Em seguida, João Nilson Zunino fala em como será quitada esta dívida. Percentual em jogadores da base é uma hipótese levantada.

- Nós podemos fazer negociação com o Avaí. O Avaí pode, o Avaí quer e, sem dúvida nenhuma, o Conselho admite. Não estou falando aquele dinheiro de juros que eu paguei. Não foi só eu também. Aquele que eu paguei acabou, é meu. Por aquilo que está aqui (o Avaí) pode, eventualmente, me dar participação em jogadores da base. De repente sai um Neymar daqui e eu ganhei uma montoeira, já pensasse? Se sai um Neymar aqui? Mas isso não tem ainda. É uma coisa que a gente pode eventualmente fazer como é feito em outros clubes Fluminense, por exemplo, e outro que não é do Rio, mas que tem um nome parecido. Eu não vejo nada demais. Eu acho que é um negócio.

Zunino garante não ser um mecenas e que não está doando dinheiro ao Avaí.

- Eu não estou dando. Eu não sou bobo. Eu posso nunca receber; e nunca vou cobrar do Avaí uma coisa que ele não possa pagar. Nunca vou, nunca irei para cima do Avaí com algum processo para receber isso do Avaí. Isso é um absurdo. Não vou fazer.

Para o presidente, essas palavras não deveriam surpreender a ninguém, pois, segundo ele, têm sido repetidas ao longo de seu mandato com a transparência exigida por lei.

- Todas as vezes que me perguntaram, eu falei isso. Não foi de mim que saiu qualquer ruído disso. Aliás, quando eu entrei no Avaí eu institui, o que era uma obrigação de qualquer entidade como essa, uma auditoria, mas quando eu entrei isso não era obrigado. Mas como eu já tinha sido presidente da Unimed, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, presidente da ACM, em todas, eu institui auditoria passada e para todo ano. A auditoria é para me corrigir durante a minha administração. São erros que eu não consigo ver aí o auditor vem aqui e me diz. Nós fizemos sempre auditoria. Isso está bem claro porque é publicado oficialmente. Isso que dá ruído é porque os caras não acompanham. Porque está lá escrito, publicado. É obrigado a estar.

Na próxima parte da entrevista, Zunino dá seu depoimento sobre como vê o esvaziamento da Ressacada e as medidas que planeja para modificar essa realidade.

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